Entrevista com Professora Diana Costa Diniz, coordenadora do curso de Licenciatura em Educação do Campo – Ciências Agrárias, Ciências da Natureza e matemática – Procampo.

Por :  Lucas Casimiro Soares Ferreira e Matheus Casimiro Soares Ferreira

 

Gostaríamos de conhecer um pouco sobre sua trajetória de estudos, seus direcionamentos de sua formação.
Fiz a graduação em pedagogia na universidade Federal do Maranhão. Durante meu período como estudante tive a oportunidade de ter algumas experiências no âmbito da educação básica, atuando na alfabetização e também no ensino fundamental. Antes mesmo de terminar a graduação fui aprovada para um concurso para prefeitura e iniciei essa experiência como professora alfabetizadora. Posteriormente passei em um concurso do Estado, onde atuei como supervisora em uma escola de São Luiz, pois a habilitação de minha graduação era em supervisão escolar. Nessa escola trabalhava com a educação de jovens e adultos no período noturno e com supervisão escolar.
Após concluir a graduação em 2005 tive a oportunidade de integrar a equipe do programa nacional de educação e reforma agrária. Iniciando no PRONERA UFMA como professora, posteriormente em 2007, assumi a Coordenação do Projeto do Curso de Licenciatura em Pedagogia da Terra Tradicional. Essa experiência foi muito positiva e determinante na minha formação acadêmica, mesmo já tendo concluído a graduação, porque fui aprender outras coisas que na graduação não tive oportunidade de aprender, embora tive a oportunidade de conhecer professores que fizeram com que compreendesse a organização desta sociedade em que vivemos. A parti de elementos que eles foram trabalhando, pude perceber as contradições inerentes a essa sociedade e também para ficar mais claro, inclusive a minha origem. Fui entender, por exemplo, por que que meu pai com trinta anos ainda foi concluir o ensino médio. Então, foi no curso de pedagogia que eu fui compreender essas contradições sociais, que é, por exemplo, você passar, principalmente para quem é trabalhador rural como meu pai, passa parte de sua vida trabalhando em roça, portanto ele não tinha tempo para estudar, mas todo tempo que teve dedicou para que os filhos tivessem uma formação que ele não teve. Então pude compreender essas limitações que este modelo social impõe. Temos uma sociedade em que parcelas da população estão a margem dos direitos, e temos um outro grupo social, em que se percebe que somente uma minoria tem acesso às benesses da sociedade.
Minha graduação também foi bastante positiva, porque eu consegui viver a universidade, embora trabalhando manhã e tarde. Mas o que é viver a universidade? É justamente conhecer a universidade por dentro. Pude conhecer as instancias deliberativas da universidade, porque, integrei a gestão do centro acadêmico, chegando até a direção do DCE. Viver o movimento estudantil, também foi determinante para mim. Na educação básica quando eu fiz o ensino médio tive a experiência com os grêmios. Então eu participei do grêmio estudantil, ajudando inclusive a construir o grêmio da escola do ensino médio que estudei. Então de certa forma, na graduação, isso foi apenas uma continuidade. Pois como estudante eu deveria contribuir nesse processo, que é um processo de auto-organização minha. E saindo e adentrando nessa vida profissional, principalmente chegando no PRONERA.
O PRONERA para mim tem sido uma experiência fantástica, porque foi nele que pude ter de fato as discursões sobre os movimentos sociais que na academia você não discute. Na academia você não discute com frequência a questão agrária. A universidade está formando pessoas que vão trabalhar com pessoas que são oriundas dessa diversidade de povos, como sem terras, sem tetos, atingidos por barragens, extrativista, e desta forma, como é que você como educador vai trabalhar com essas pessoas se você não conhece esse conjunto de questões que estão ligadas a vida desses sujeitos? Então a experiência do PRONERA me permitiu completar e dar significado a minha vida como educadora, porque durante o período do magistério atuei no polo de Esperantinópolis e Peritoró que eram os polos do PRONERA. Somente depois vim para cá (UFMA, campus Bacabal). Aprendi muito com pessoas que não foram para escola, mas que na verdade tinham uma sabedoria de uma escola, que é a escola da vida. Então a experiência do PRONERA foi magnifica na minha vida, porque eu aprendi a lidar com as pessoas, a ouvir as pessoas e também a questão de você valorizar questões significativas que às vezes não damos muito valor, mas que naquelas atividades, pequenas coisas que os movimentos sociais fazem permite que você aprenda a ter um olhar para certas coisas que até então eram imperceptíveis.
Nos movimentos sociais você tem uma mística, que tem diferentes sentidos e diferentes formas de se organizar. Tem místicas que são mais voltadas para a questão dos rituais das lutas, o que depende de cada movimento, mas o certo é que vivenciar a mística também nas atividades dos movimentos sociais me fez aprender algo que nas relações sócias quase não tem e isso é aprender a ter sensibilidade. Então isso para mim foi muito significativo.
Desde 1988, início da graduação até a presente data consegui manter um vínculo com UFMA, através das experiências no PRONERA, entrei na especialização, no mestrado, e depois fiz concurso para professora pois, fiz da universidade um projeto de vida. Então se eu ficasse na educação básica com dois empregos, pelo tempo de serviço que eu tinha poderia está ganhado até mais, mas para mim o financeiro está para além do projeto de vida. Quando falo em projeto de vida me refiro a que? Projeto de universidade que defendo, e também a valorização do ensino, da pesquisa e da extensão. Então na graduação tive professores que me ajudaram nesse processo de investigação. Durante minha graduação tive a oportunidade de ser bolsista de iniciação cientifica, sendo uma oportunidade muito valorosa para mim, estudei a questão dos estudos epistemológicos no Maranhão, o que serviu para o mestrado e outras formações. Então essa é minha formação.
Está hoje na Educação do Campo, faz parte de uma trajetória que vem desde de 2005, e que a cada dia a gente se completa, porque nunca estamos completos, como diz Paulo Freire, nos somos seres inconclusos. Então no PRONERA tive muito mais contato, enfrentamos muitos desafios para dar conta desses projetos e das experiências, porque sabemos que estar na Educação do Campo é acreditar num projeto de sociedade. Não tem como está na Educação do Campo e ter uma aversão a questão agrária ou aos movimentos sociais, das duas uma, ou você vai se entregar rapidinho e ser convidado a sair desse espaço, pois não vai dá para casar uma aversão aos movimentos sociais e a questão agrária dentro da Educação do Campo. Não da no plano da Educação do Campo, tratarmos de divergências, ou não aceitação de debates como questão agrária e movimentos sociais, porque você estará sendo contra esse projeto. E é por isso, que estou na Educação do Campo, porque eu acredito no curso, acredito na formação via PRONERA, na formação via licenciatura do campo. Porque penso que é um projeto que tenta se contrapor a outras formas de educação que temos na Universidade. É fácil? Não é nada fácil. Porque é você lutar contra uma organização que já existe e que é diferente da nossa.

Professora Diana gostaríamos que você falasse um pouco sobre como se deu a sua escolha pela docência e qual a sua linha de pesquisa atualmente.

Na época eu fiz curso técnico de ensino médio e para fazer o vestibular fiquei vendo os manuais do curso, que tinha mais ou menos algumas informações dos cursos, mas como eu havia dito, no ensino médio como eu tive a experiência com o grêmio, fui da pastoral da juventude, atuando na direção da pastoral da juventude. Então essa questão muito de planejamento, de está à frente, eu creio que tenha sido um pouco de influencia para a escolha do curso de pedagogia. Porque eu também fui vê algumas disciplinas que desde meu ensino médio sempre me chamaram muito a atenção, disciplina como sociologia e a filosofia. Meus pais mesmo não tendo acesso a essas leituras criticas, me permitiram leituras ainda em meus 12, 13, 14 anos de idade, leituras de pessoas que tiveram um olhar muito critico no Brasil. A opção pela pedagogia teve esse caráter, pelo conjunto das disciplinas e também pelo interesse pela docência. Me sinto muito bem, estando na sala de aula. A docência é um trabalho que é o que eu realmente me identifico, que eu gosto de fazer. Logo eu estou professora por que gosto de ser, tem gente que é mas não está, estou porque sou e gosto. Essas questões foram decisivas, eu creio que foi uma decisão acertada, iniciei um outro curso, fui até o terceiro período de direito, mas não me arrependo de ter parado, e continuar a pedagogia. O curso de pedagogia para quem sabe aproveitar a pedagogia como uma ciência possibilita compreender questões do ensino, como do planejamento.

A vinda para a universidade se fortaleceu a partir de uma experiência na educação infantil ao ensino médio, pois possibilitou compreender como é que ocorre a trajetória de ensino da educação básica. Porque sem isso, ao chegar no ensino superior dificilmente iria compreender algumas questões, por exemplo, porque que os alunos chegam no ensino superior e as vezes tem várias deficiências de leituras de matemática e tantas outras questões. Na escola que eu era supervisora, por exemplo, os alunos passaram um ano todo sem professor de geografia, outra turma sem o professor de matemática. A ausência desse conteúdo vai deixar várias lacunas na vida acadêmica do estudante e o professor que não tem conhecimento diz que isso é problema do aluno, mas não é, o problema não é só do aluno, mas é uma responsabilidade nossa também.

Nesse momento desde minha trajetória de estudo o meu Mestrado foi na formação de educador e tenho continuado com a formação do educador. A formação do educador, não está deslocada da organização do trabalho pedagógico, das politicas educacionais, logo, engloba todo esse emaranhado que vai permitir que consiga compreender a formação do educador. É um tema que eu me identifico. No doutorado também vou estudar a formação do educador e no caso educador do campo, porque no mestrado estudei o curso de pedagogia, mas agora pretendo estudar a formação do educador voltado para a Educação do Campo.

 

Professora, sabemos que além de professora você é coordenadora do curso de licenciatura em Educação do Campo você também é tutora do Programa de Educação Tutorial, PET Conexões de Saberes, então gostaríamos que falasse um pouco sobre sua experiência de estar a frete desse programa.

Primeiro para contextualizar o PET Conexões de Saberes surge em 2010 com a criação do Edital de expansão. Na época a professora Cacilda com a professora Adelaide e o professor Ribamar fizeram o projeto submeteram e foi aprovado. No momento eu já integrava a equipe de execução, mas a tutora era a professora Cacilda. Ela ficou até final de 2012 e foi quando ingressei. Na época, o PRONERA não tinha professores efetivos, mas eu já era efetiva da universidade. Houve a seleção, me submete e passeia a integra a equipe como tutora. O objetivo do PET desde o inicio tem sido estudar a organização e gestão das escolas do campo. Como na época o PET teve sua vinculação com o PRONERA e LEdoC, dividíamos seis bolsas para cada Curso. Buscávamos investigar como as escolas estavam desenvolvendo o seu trabalho pedagógico no âmbito das turmas multisseriadas, o que contemplaria a experiência do PRONERA, visto que a pedagogia da terra atua nas séries iniciais e as turmas multisseriadas frequentemente são nas séries iniciais. E as escolas que estão organizadas pela alternância de tempos educativos que são as casas e as escolas. Essa experiência tem sido bastante exitosa para os discentes, porque as monografias dos bolsistas do PET apresentam um diagnóstico de algumas escolas do campo no Maranhão. Esse trabalho de investigação do PET, fez com que a gente contribuísse com esses aspectos. Então penso que para os alunos isso foi muito gratificante, tanto que os que foram do PET não tiveram nenhuma dificuldade em fazer as monografias. Penso que tenha sido muito significativo para os alunos, porque durante esse período tivemos a oportunidade de participar de alguns eventos e levar a experiências do Maranhão da Educação do Campo.

Atualmente foi feita uma recomposição do grupo, porque a pedagogia da terra (o PRONERA) encerrou suas atividades no ano de 2016, ficando apenas com os alunos da LEdoC. Essa recomposição se efetivou em 2017 com a entrada de novos bolsistas.

O PET tem sido um grande aprendizado, pois não damos conta de conhecer a totalidade dos problemas das escolas dos municípios, e pelo PET tem sido possível conhecer um pouco mais desses problemas. Ao mesmo tempo em que eu contribuo no sentido de que o aluno possa caminhar esse processo investigativo tem me permitido ter dados substanciais sobre a questão do Maranhão que não encontramos em nenhum livro didático.

 

Gostaríamos que você falasse um pouco sobre outros projetos desenvolvidos pela Licenciatura em Educação do Campo.

Nós temos em andamento alguns projetos de pesquisas e outros que foram submetidos em agências de fomento. Temos o núcleo de agroecologia, que estamos aguardando devolutiva da submissão. Temos o Programa Institucional de Iniciação à Docência – PIBID diversidade que é um outro programa de grande importância na atuação dos discentes com foco no âmbito da docência, o mesmo tem atuado em duas escolas, a escola Padre Josino Tavares no município de Bom Jesus das Selvas e a Escola Roseli Nunes no município de Lagoa Grande. Temos em andamento os projetos: a) A Contextualização do ensino de química e a pedagogia da alternância em Escola do Campo (Prof. Dr. Meubles Junior); b) Silagem do Capim-elefante aditivada com diferentes níveis de farelo de babaçu (prof. Dr. Marcônio Rodrigues); c) As riquezas simbólicas dos Centros Familiares de Formação por Alternância: a história que a Educação Rural não contou (Profa. Dra. Alexandra Campos; d) Projeto de Apoio Pedagógico às Escolas do Campo, em Áreas de assentamento da Reforma Agrária e Comunidades Quilombolas; e) ÁREAS VERDES: Importantes ferramentas pedagógicas, de caráter interdisciplinar, em favor da educação (Prof. Me. Fernando Coelho). Temos a perspectiva da criação do núcleo do ensino de ciência. Enfim, tem outros professores chegando, uns do doutorado, outros chegando agora penso que nesse momento que estamos em um processo de recomposição da equipe, completando o quadro de professores, a perspectiva é que tenhamos novos projetos futuros.

 

Como o curso de Licenciatura em Educação do Campo surge com o proposito de atender aos povos do campo, gostaríamos que falasse um pouco sobre a perspectiva de trabalho para os futuros licenciados.

Penso que essa é uma demando dos discentes, dos docentes, das secretarias. Como é que eu torno concreto o espaço concreto para atuação da licenciatura quando percebemos um processo de acirramento do fechamento das escolas do campo? Como é que a gente vai romper essa lógica? Porque parece ser bem lógico que a existência do curso de licenciatura, depende do fortalecimento das escolas do campo. Se estamos fechando as escolas, qual será nosso espaço concreto de atuação. E por isso temos que unificar lutas, braços e energia, movimentos sociais, entidades sindicais, docente, discente que é justamente para romper com essa lógica de fechamento das escolas. Agora para romper com essa lógica de fechamento das escolas, temos de romper com outro projeto, que é o projeto que não quer gente no campo. Se não precisa ter gente não precisa ter escola. Sabemos que o enfretamento com o agronegócio é um enfrentamento pesado.

Portanto, garantir a atuação dos egressos do curso de licenciatura em Educação do Campo é constantemente um enfrentamento com o agronegócio. Por isso que não tem sentido alguém estar no curso de licenciatura em Educação do Campo que não se identifique com os movimentos sociais ou com a questão agrária. Porque essa luta não pode ser só dos docentes ou discentes. Temos a questão das prefeituras em seus editais contemplarem a formação por área de conhecimento, assim como lutar contra o fechamento das escolas. Temos que envolver a universidade, os movimentos sociais, as entidades sindicais, o comitê Estadual de Educação do Campo e demais entidades com a finalidade construir pautas em defesa da garantia do direito a educação do campo.  É por isso que estamos tentando propor a criação de um grupo de articulação. E quais são os cursos que estão formando as populações camponesas no Maranhão? É o PROCAMPO na UFMA, PROCAMPO na UEMA, o curso de agronomia na UEMA e o PRONERA, Agora temos que ter um projeto articulado, pois a licenciatura é responsabilidade de quem? Do Estado, da UAEFAMA, ACARFA, de todas as federações dos trabalhadores, do MST, ACEMA, ACESA, AVESOL, dos deputados daqui de Bacabal e do conjunto da população excluída do direito a educação. Com isso, não estamos fazendo nenhum tipo de campanha, até porque não sou filiada a nenhum partido, mas é chamar os parlamentares a cumprir um dever que eles têm como representantes nossos no parlamento, quer nas pautas relativas a Educação do Campo, ou o direito a garantia da educação, sejam de fato nossos representantes. É ir para o governo do estado, para as prefeituras, é uma tarefa grande e por isso, não é uma tarefa só nossa. É esse o desafio que está posta para todos nós, pois lutar pela sobrevivência das escolas do campo é lutar pela sobrevivência da licenciatura. Porque nessa conjuntura em que vivemos o que tem ocorrido é a precarização do ensino público.

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