Entrevista com Prof. Dr. Hawbertt Rocha Costa

 


Por REIS, Tiago Rodrigues dos; e VIANA, Leila Mayanne Silva.

Dr. Hawbertt Rocha Costa é Professor Assistente da Universidade Federal do Maranhão no Campus de Bacabal no curso de Licenciatura em Ciências Naturais. Possui graduação em Química Licenciatura pela Universidade Federal do Maranhão (2009). Mestrado em Química Analítica pela Universidade Federal do Maranhão (2012). Doutorado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Campus Bauru em Educação para a Ciência (2016). Atualmente desenvolve atividades na área de Ensino de Química, especialmente no que versa sobre produção e aplicação de Objetos de Aprendizagem e produção de significados pelos alunos no estudo dos conceitos de Química. Além disso, atua em outras áreas da Educação para Ciência como: Educação Ambiental e Divulgação Científica.

  1. Em que momento e como se deu sua escolha profissional?

– Inicialmente eu entrei na universidade para o curso de química industrial, no entanto o mercado de trabalho me motivou a procurar o curso de licenciatura. Eu pesquisei sobre alguns colegas que já estavam formados em química industrial e vi que ganhavam muito pouco para trabalhar 40 horas, pesquisei quanto um licenciado ganhava com dois contratos no Estado e vi que ganhava quase o dobro do salário aqui no Maranhão. Então inicialmente eu fui motivado pelo salário e confesso que não queria ser professor, só que a grade curricular do curso de química industrial até o 5° período é praticamente similar à grade curricular do curso de licenciatura. Eu cursei até o 5° período que me deu tempo para fazer essa pesquisa e no 5° período fiz um vestibular interno, que a gente chama de transferência. Transferi o curso para licenciatura, fui gostando muito do curso, participei de alguns projetos sociais como um projeto quilombola, afro na verdade, que dávamos aula em um cursinho pré-vestibular comunitário, dava aula de graça como graduando ainda, fui me apaixonando pela docência e hoje estou aqui na UFMA, fiz mestrado na área de pesquisa de laboratório e o doutorado eu fui fazer na área de ensino. 

  1. Acredita que tenha feito uma boa escolha?

– Eu creio que sim, eu fiz uma boa escolha (risos). Eu amo o que eu faço, então acho que não teria outro local para mim estar que não seja a sala de aula. 

  1. Além da licenciatura, você possui outra formação ou já trabalhou em outra área?

– Além da química, minha outra paixão é a informática. Após terminar a licenciatura, cursei um ano e meio de informática, a nível de graduação, pela UFMA, no mesmo período passei para o mestrado. Tentei levar os dois cursos juntos, mas após seis meses o curso de computação ficou mais pesado que o mestrado, então eu decidi fazer o trancamento do curso e optei só pela área de química mesmo. Hoje eu tento integrar um pouco a informática voltada para o ensino de química, mas não concluí o curso de informática. 

  1. Como se deu a sua vinda para o campus de Bacabal?

– Eu estava no doutorado em São Paulo na cidade de Bauru e observei que apareceu um edital para concurso no Maranhão. Eu não gostava de São Paulo e vi que era a oportunidade para voltar para minha terra. Assim, aproveitei essa oportunidade de forma bem intensa, estudei bastante, vim fazer a prova e hoje estou aqui em Bacabal. Inicialmente o concurso era para o campus de Codó, mas só tinha uma vaga e eu fiquei como excedente, me chamaram para o campus de Bacabal porque tinha uma vaga aqui.

  1. Qual sua linha de pesquisa e atuação?

– Atualmente a gente está com pesquisa na informática aplicada ao ensino de ciências ou ao ensino e química que é minha área de formação, então trabalhamos nessa linha, na área de ciência e tecnologia.

  1. Recentemente você defendeu sua tese de doutorado, com foi essa experiência? De que forma essa qualificação vem somar na sua carreira e na formação dos seus alunos? 

– Eu concluí o doutorado em 2 de junho de 2016, foi uma trajetória difícil, não foi fácil. Penso que qualquer pessoa que passou por essa experiência vai dizer a mesma coisa para vocês. Foi uma experiência muito válida, porque o interessante não é a gente dizer que conseguiu fazer o doutorado, o mais gostoso é você olhar para trás e ver que conseguiu passar por todas as dificuldades, por todos os empecilhos, ultrapassar todos os obstáculos e ver que conseguiu. É uma fase em que você se dedica aos estudos, quatro anos em que você quase entra em depressão por conta de tanta pressão para fazer tudo aquilo. O primeiro e último ano são os piores. No primeiro ano você está pagando as disciplinas, para mim foram muitas coisas novas porque eu saí de uma área, da pesquisa de laboratório, da pesquisa dura como é chamada, para a área de ensino, então tive que estudar tudo do início na área do ensino e educação para poder aprender. O último ano é o ano da tese, e coincidiu de eu passar e ser chamado para o concurso e ter que conciliar o emprego com o doutorado. Após um ano de trabalho consegui uma licença, podendo me afastar para concluir o doutorado. O último ano confesso que foi bastante difícil, mas de certa forma a gente colhe o que a gente planta. Hoje estou muito satisfeito em ter concluído o doutorado e isso só vem a somar para mim como profissional e para os alunos. Na minha pesquisa de doutorado, como trabalhei na área de ensino e pesquisa e pesquisei a sala de aula, produção de significados e conceitos em química com alunos licenciados em química. Desse modo, eu observo a sala de aula de uma forma diferente. Assim, essa experiência que tive no doutorado eu trago para dentro de sala de aula a partir da minha pesquisa e de certa forma é bom para os alunos. É passada uma outra visão para eles sobre o que é ser professor e de como é aprender. Porque aprender não é apenas eu saber o conteúdo e transferi-lo para o aluno, não, eu tenho que saber toda dinâmica de sala de aula, como ela funciona, ter ciência que cada mente é diferente. Cada um aprende de forma diferente e eu não posso generalizar o ensino e dizer todo mundo vai aprender de forma igual.

  1. Você possui alguns trabalhos embasados na teoria de Vigotski, qual a contribuição desse teórico para o ensino e de que forma ele influencia suas aulas?

– Eu posso dizer que Vigotski influencia minhas aulas de todas as maneiras (risos). É um teórico que trabalha as questões socioculturais e a questão sociocultural é a tendência atual do ensino, então acredito que influencia fortemente. Essas teorias eu tento trazer para dentro de sala de aula, até porque os alunos que eu estou instruindo são licenciandos, serão professores e as teorias dele são de extrema importância para quem vai ser professor como, por exemplo, a questão da interação social, a questão da mediação.

  1. Além de Vigotski existe outros teóricos que influenciam suas aulas?

– O teórico que trabalho é James Hosts, que trabalha com Vigotski. É um teórico norte-americano que ainda está vivo e acreditasse que ele continua a teoria de Vigotski e ele também trabalha sua teoria com Bakhtin e Kenneth Burke.  Ele trabalha Bakhtin discutindo a dialogia humana e Kenneth Burke a ação humana, então é um conjunto. Eu trato a partir de Vigostsk a interação social, Bakhtin a questão do discurso e Kenneth Burke a ação humana, então juntando esses três eu tenho uma interação social dentro da sala de aula, sendo analisada a partir do discurso e qual ação humana vai ser tomada. Tem outros teóricos que eu me embaso também para o estudo, esses são apenas teóricos que eu utilizo na minha pesquisa, tem outros também que eu embaso no ensino de ciências, que busco para as aulas de metodologia, para as de instrumentação como Edgar Morin. Enfim, são diversos outros e estou iniciando os estudos na área de jogos. Existem, alguns teóricos na área de jogos, ainda contemporâneos porque os jogos digitais são algo bem recente. 

  1. Você possui algum projeto de pesquisa no campus? Conte-nos um pouco.

– Sim. Esse projeto de pesquisa é recente, começou como projeto de extensão, é chamado PEDIC que é o Projeto de Ensino Digital para a Ciência. Ele é um projeto em que a gente desenvolve Objetos de Aprendizagem, dentro dos Objetos de Aprendizagem fazemos jogos digitais. E também é um projeto que desenvolve metodologias destes jogos, outros jogos ou de outros Objetos de Aprendizagem, pois o foco principal do projeto é justamente na questão dessas metodologias de aplicação. Tem-se muito material na internet, no entanto temos pouco material instrucional, material pedagógico que auxilie a aplicação desses Objetos na sala de aula. 

  1. O Projeto já obteve frutos?

– Atualmente ele é um projeto de pesquisa, mas quando começou em 2013 era um projeto de extensão e um aluno de monografia já defendeu o projeto com a criação de um jogo, o jogo só tem uma fase por em quanto, a gente está desenvolvendo outras fases. Estou orientando uma aluna de mestrado que também está vinculada a este projeto de pesquisa, que vai de fato fazer a aplicação da conclusão desse jogo. Estou orientando outro aluno de monografia que está continuando esse projeto da fase inicial e o jogo continua, ele não tem como intenção parar agora, a gente vai construir mais fases e vai fazer a implementação dele em outras plataformas.

  1. Qual o objetivo do jogo que estão desenvolvendo?

– A intenção do jogo é trabalhar a questão do cotidiano voltado para o ensino de química, que a gente chama de perspectiva CTSA que é Ciência, Tecnologia Sociedade e Ambiente, então é um jogo muito interdisciplinar que envolve questões ambientais, políticas, sociais e o conteúdo de química em si. Então a gente pretende trabalhar de três em três fases em mundos diferentes, esse primeiro mundo que a gente está trabalhando é o mundo dos ácidos e bases. A gente colocou o nome do jogo de Planeta química: uma aventura no cotidiano, então temos várias categorias dentro desse planeta. 

  1. Qual a importância da participação dos alunos em projetos de iniciação científica, extensão e pesquisa?

– Considero a participação dos alunos de extrema importância, tanto para na vida pessoal, quanto no campo formativo. Mas, principalmente no campo formativo, porque é aí que ele vai aprender a pesquisar e entender como funciona uma pesquisa.

– Tratando-se do projeto de pesquisa PEDIC, que é na área de ensino, incentiva ainda mais a profissão, uma vez que o nosso é de Licenciatura e o aluno será formado para atuar como professor. É um projeto que se preocupa com o ensino e envolve novas metodologias dentro de sala de aula, portanto, é um projeto que vai auxiliar o aluno dentro de sala de aula. Em relação a outros projetos que trabalham com laboratório também ajudam muito porque incentiva os alunos a observarem como é que os cientistas trabalham, como é que é feita uma pesquisa de laboratório e tentar fazer daquilo uma extensão para dentro de sala de aula. 

  1. Qual sua opinião sobre o curso de Ciências Naturais?

– É um curso que tem uma primeira intenção de ser interdisciplinar. Portanto, é um curso que forma melhor para o ensino fundamental voltado para as disciplinas de ciências. Se observamos a maioria dos profissionais do ensino fundamental que estão no município na disciplina de ciências são licenciados no curso de Biologia. Onde fica a parte da química e da física que é tratada no ensino fundamental? Então o curso de ciências naturais consegue cumprir com requisito que é exigido do profissional de ciências naturais, que é trabalhar as três áreas da ciência, biologia, química e física. Quanto à habilitação eu acredito que a grade curricular do curso poderia ser modificada no sentido de dar uma formação mais sólida na Física ou na Biologia, que são os dois cursos que temos aqui no campus Bacabal, porque eu acredito que um ano é pouco tempo para você ter uma habilitação em física ou biologia. Talvez se fizessem dois anos de ciências naturais e dois anos de habilitação, ficaria mais razoavelmente adequado para as duas formações no caso da licenciatura.

  1. Como você vê a importância do curso de ciências naturais com habilitação de física e em biologia para a região bacabalense?

– A região de Bacabal carece muito dessa da formação de professores na área de ciências. Portanto, vejo como um ponto positivo para a cidade, porque a gente está observando que os alunos que estão saindo formados daqui da universidade e conseguindo emprego nas escolas tanto aqui em Bacabal como em outros municípios do estado. 

  1. Qual a possibilidade da vinda do curso de química para o campus Bacabal?

– Olha, eu não sei a possibilidade da vinda dele para o campus Bacabal, A cidade já tem o curso de química que no IFMA e eu acredito que ele dá conta da demanda. Portanto, não acredito na vinda de um curso de química para a UFMA. Não adianta a gente criar um curso de química na UFMA no Campus de Bacabal, se a gente já tem um Instituto Federal na cidade que dá conta dessa demanda na cidade.

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Da esquerda para direita: Leila Mayanne e Hawbertt Rocha

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Da esquerda para direita: Tiago Rodrigues e Hawbertt Rocha

 

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Sobre meublesborges

Professor do Curso de Licenciatura em Educação do Campo. Graduação em Química Industrial. Mestrado e Doutorado em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas, as especificamente Química do Solo na Área de Meio Ambiente). Desenvolvo trabalhos na área de Educação Ambiental e Tecnologias Ambientalmente Saudáveis e de Baixo Custo.

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